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25 de julho de 2012
Cientistas brasileiros criam curativo de cana que acelera cicatrização

Polímeros feitos da planta também dão origem a próteses ortopédicas, pinos, placas e stents

Luiz Silveira

Pesquisadores de universidades federais de Pernambuco desenvolveram um curativo feito a partir de melaço de cana-de-açúcar que pode reduzir o tempo de cicatrização de feridas em até 50%, segundo as pesquisas. Outras vantagens são o fato de o curativo não precisar ser trocado, ser biocompatível e atóxico. “Montamos um laboratório e uma empresa incubada com o objetivo de colocar o produto no mercado em dois anos”, diz o engenheiro químico Francisco de Assis Dutra Melo, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Já no campus de Rio Claro da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), outro grupo de cientistas está começando a desenvolver comercialmente um processo que permita a produção de polímeros feitos de cana para a fabricação de próteses ortopédicas, pinos, placas e stents (alargadores que evitam o entupimento de artérias). O diferencial é que as peças feitas a partir da cana, por serem biocompatíveis, apresentam menos rejeição e não precisam nunca ser retiradas do corpo, evitando novas cirurgias.

No futuro, a tecnologia do curativo também pode dar origem a outros produtos, como próteses e fios cirúrgicos. “Há até uma linha de pesquisa que conseguiu obter artérias a partir desse material”, diz Dutra. O desenvolvimento dessas aplicações foi possível por uma parceria entre a UFRPE e a área de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Em três anos, 25 teses de mestrado e doutorado foram publicadas pelo grupo de pesquisa a partir da aplicação do polímero da cana à saúde.

Tanto em Rio Claro quanto em Carpina, onde fica a estação experimental de cana da UFRPE, os biopolímeros são obtidos a partir da ação de micro-organismos sobre o melaço de cana. As rotas, no entanto, são distintos. A pesquisa de Pernambuco utiliza uma bactéria identificada e melhorada nos últimos 15 anos, que produz o polímero a partir do melaço de cana ou do mel por meio da fermentação. Já a linha da Unesp é baseada na produção de ácido lático a partir do melaço ou do soro de leite. O ácido é, então, transformado no polilactato, polímero substituto do plástico tradicional.

O fato de ser originado em uma fonte renovável faz com que os polímeros, além de mais compatíveis com o corpo humano, também sejam mais ecológicos. Dutra conta que estudos de mercado feitos por pesquisadores australianos que trabalhavam em linhas semelhantes calcularam que os polímeros renováveis podem substituir 30% a 40% dos sintéticos. De forma simplificada, isso significa que mais de um terço dos plásticos produzidos no mundo poderá vir de fontes renováveis.

Esse potencial é comprovado pelo fato de a Braskem, empresa petroquímica que já fabrica um plástico para garrafas PET a partir do etanol de cana, ser a principal parceira do projeto de pesquisa da Unesp de Rio Claro. A companhia investirá R$ 567 mil em bolsas para os pesquisadores envolvidos nos três anos do projeto. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) está aplicando cerca de R$ 400 mil na compra de equipamentos para o laboratório.

Trabalhos semelhantes já levaram indústrias a produzir biopolímeros semelhantes em outros países, mas o diferencial dos trabalhos brasileiros é que a matéria-prima é muito mais barata, segundo o engenheiro de alimentos Jonas Contiero, coordenador da pesquisa da Unesp. Nos Estados Unidos se fabricam bioplásticos a partir do amido de milho e na Europa se usa o açúcar de beterraba, enquanto o melaço de cana e o soro de leite são subprodutos dessas indústrias, e não suas principais fontes de receita.

Não há previsão de quando o grupo de pesquisa pernambucano atingirá a escala comercial para os próximos produtos à base de cana. Já a parceria entre Unesp e Braskem levará os próximos três anos desenvolvendo as soluções industriais para a produção do biopolímero. Já o curativo depende da certificação do laboratório da UFRPE junto aos órgãos reguladores.

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