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20 de junho de 2012
O agro na Rio+20

André Nassar
A agenda da redução de impactos do agro veio para ficar

Mesmo correndo o risco de basear minha análise em apenas alguns aspectos do tema – afinal, é praticamente impossível participar de todos os eventos na Rio+20 que discutem, direta ou indiretamente, agricultura –, duas questões foram recorrentes nas discussões sobre a agenda de desenvolvimento sustentável do agro: saídas para melhorar a eficiência no uso dos recursos naturais e impactos decorrentes do necessário aumento futuro da produção para atender às necessidades de consumo de alimentos de uma população ainda crescente.

Em quase todos os eventos relacionados à produção e consumo de alimentos, o grande mantra é a agenda do desenvolvimento sustentável. Obviamente, há diferentes visões sobre o significado concreto dessa agenda. Alguns estão olhando mais o consumidor como transformador e viabilizador dela. Outros defendem modelos específicos de produção agrícola como únicas opções sustentáveis, e com isso negam à agricultura com especialização e maior escala um lugar nesse grupo. Alguns enxergam no desenvolvimento tecnológico a única chave para melhorar o grau de sustentabilidade dos sistemas produtivos agrícolas. Entretanto, mesmo no tema da tecnologia há divergências entre os defensores de pacotes tecnológicos ofertados num modelo de mercado daqueles que apregoam o desenvolvimento tecnológico não intensivo em capital.

Ainda estou participando da Rio+20 e, a despeito das diferentes visões sobre como concretizar o desenvolvimento sustentável no agro, se eu pudesse resumir em duas palavras o cerne dessa agenda, advogaria pelo baixo impacto.

A palavra impacto, definitivamente, entrou no discurso das autoridades presentes e dos participantes dos eventos em que estive presente. Muitas pessoas que falavam sobre desenvolvimento sustentável utilizavam exemplos ou descreviam situações que se referiam à necessidade de reduzir os impactos da produção agropecuária. O setor agrícola foi diversas vezes caracterizado como um dos grandes emissores de gases do efeito estufa e como o maior responsável pela conversão de vegetação nativa e pela degradação da qualidade da água.

No entanto, em todos os eventos de que participei, essa caracterização do setor agropecuário como gerador de impacto foi feita de forma positiva e natural. Ou seja, sendo um setor que depende dos ciclos da natureza e demanda recursos naturais, é quase uma obviedade que os sistemas produtivos gerem tais impactos. Além disso, como se busca produzir alimentos com ganhos de produtividade, o setor é também forte usuário de insumos externos, que são também fontes de impactos. Colocada essa questão dos impactos de forma positiva, embora desafiadora, e como uma realidade que precisa ser atacada, inclusive como condição para a viabilidade econômica da produção, fica fácil perceber que a agenda de reduzir os impactos dos sistemas produtivos agrícolas veio para ficar.

A questão da redução dos impactos esteve por trás, também, das inúmeras apresentações que argumentavam em favor da necessidade de desenvolver indicadores e metodologias para mensurar como os sistemas de produção se integram aos ciclos da natureza. Há uma evidente preocupação pairando no ar nesta conferência com o uso dos recursos naturais e se esse uso está se tornando mais eficiente com o passar do tempo. Muitos reconheceram os enormes avanços feitos em aumento de produtividade, mas também revelaram preocupação sobre se tais ganhos se converteram em uso mais eficiente dos recursos naturais. As métricas são importantes para dirigir a escolha por caminhos que levem a ganhos de eficiência.

Muitos palestrantes argumentaram que o grande desafio do crescimento da população, da maior taxa de urbanização e da mudança de hábitos de consumo, sobre tudo com migração para dietas baseadas em proteínas animais, não é ter capacidade produtiva para alimentar todos. Há um certo consenso de que as tecnologias hoje disponíveis e uma melhor distribuição do conhecimento e dos recursos financeiros que visem a reduzir as chamadas lacunas de produtividade – sobretudo nos países africanos os níveis de produtividade ainda são muito baixos–podem garantir a produção necessária para alimentar um mundo com 9 bilhões de pessoas em 2050.

No entanto, muitos revelaram preocupação no sentido de que, se esse aumento de produção ocorrer sem expressivos ganhos de eficiência no uso do recurso natural e, portanto, reduzindo os impactos por unidade de produto produzido, os custos ambientais desse aumento de produção poderão não compensar seus ganhos econômicos. É também uma preocupação, a meu ver, justa.

Como é natural em eventos desta magnitude, o consenso sobre “o que” fazer é facilmente atingível, ao passo que o “como” fica nas propostas vagas e com boas intenções. Isso sem falar no “quem”, porque ninguém quer agir sozinho e carregar o custo de ser o primeiro. Houve tentativas de estimular a ideia da gestão integrada da paisagem, em que produção e recursos naturais são vistos como partes de um mesmo sistema. Sem dúvida, a solução passa por modelos inovadores de gestão e, com certeza, tais modelos devem ser inseridos em recortes espaciais definidos pela área de influência de recursos naturais e do uso produtivo. Porém, quando essa ideia da gestão foi jogada para discussão, nenhuma ideia prática emergiu.

Mais do que ajudar a alimentar o mundo de 2050 – no que certamente caberá ao agro brasileiro um papel central –, o Brasil é um dos poucos países de clima tropical que reúnem as condições necessárias para construir o caminho da agricultura de baixo impacto. Esse é o diálogo que precisa ser estabelecido dentro do agro para que o setor tome essa bandeira como sua, antes que as ONGs ambientais o façam.

André Nassar é diretor-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone) e coordenador da RedeAgro.

*Artigo originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 20/06/2012.

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