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6 de junho de 2012
O que o Proálcool ensina sobre os problemas atuais do etanol

Pioneiros do setor avaliam cenários para evitar a repetição de erros

Luiz Silveira

Em 1989, a falta de etanol hidratado nos postos de combustíveis gerou uma crise de imagem que fez despencar a venda de carros a álcool e mergulhou as usinas em uma década de crise. Os desafios do etanol hoje são distintos, mas pioneiros do Proálcool associam os dois períodos. “O etanol está tendo vida curta de novo, porque começamos a usar o preço de combustíveis como política de controle da inflação”, diz Cícero Junqueira Franco, fundador da usina Vale do Rosário.

Engenheiro, Junqueira Franco fez parte do pequeno grupo que entregou ao governo militar o documento “Fotossíntese como fonte de energia”, que serviu de base para o Programa Nacional do Álcool (Proálcool). O objetivo era contornar os altos preços do combustível que o Brasil importava, depois do primeiro choque do petróleo, em 1973. Em três safras, a produção subiu de 600 milhões para 3 bilhões de litros.

Assim como naquela época, o petróleo também iniciava uma forte alta quando foi lançado o carro flex, em 2003. No Brasil, contudo, os preços dos combustíveis fósseis não acompanharam a alta internacional. “O preço da gasolina está parado há oito anos no Brasil, e os custos de produção do etanol dobraram no mesmo período”, compara o empresário Maurílio Biagi Filho. Junto com o pai e os irmãos, também sócios de Junqueira Franco, Biagi Filho acompanhou grande parte do desenvolvimento do Proálcool.

A presidente da Petrobras, Graça Foster, reconheceu novamente nesta quarta-feira (6) que o governo terá que reajustar os preços. “O preço da gasolina é o mesmo há muitos e muitos anos, na porta das nossas refinarias”, disse, completando que “a expectativa é que, em algum momento, não há esse prazo definido, nós façamos, sim, uma correção do preço da gasolina e do diesel”.

A preocupação dos dois empresários com a situação atual carrega suas experiências com o programa que surgiu nos anos 70. O segundo choque do petróleo, em 1979, levou o governo a adotar um segundo modelo de Proálcool, baseado em destilarias autônomas – não ligadas a usinas de açúcar – e em carros a álcool – na primeira fase o foco foi misturar o etanol à gasolina de todo o País.

Mais de 200 destilarias foram criadas com financiamento de fundos do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), que lucrava com as exportações de açúcar. Mas em 1985, o preço do petróleo voltou a cair; o País se desacelerava. “De 1985 em diante, o petróleo caiu permanentemente e o governo foi tirando os incentivos do álcool, enquanto os custos de produção da cana só subiam”, recorda Junqueira Franco.

Situação não muito diferente da atual. Apesar de os preços do petróleo estarem bem superiores aos da crise do etanol da década de 80, os preços internos dos derivados estão congelados pelo governo. Da mesma forma, os custos de produção da cana e do etanol sobem. “Relaciono o problema de 1989 com o que está acontecendo hoje. A crise atual é a mais séria pela qual já passamos, porque dependemos do governo para definir preço”, diz Biagi Filho.

Durante o Proálcool, os mercados de açúcar e álcool eram totalmente controlados pelo governo. Maurílio Biagi Filho afirma até que a crise de abastecimento de 1989 foi gerada pela emissão de licenças de compra menores pelo governo para as distribuidoras, que por isso não conseguiram atender a demanda dos postos.

Caráter ambiental
Um benefício do Proálcool que perdura é a diminuição da necessidade de importação de combustível, já que o Brasil ainda não é autossuficiente na produção de gasolina. Segundo cálculos do consultor Plínio Nastari, sócio da Datagro, o etanol evitou gastos de US$ 250 bilhões de dólares em importações de combustíveis equivalentes a 2,1 bilhões de barris de petróleo.

Além de preservar reservas cambiais do País, a criação do Proálcool também teve como objetivo evitar a realização de elevadas despesas com estoques de açúcar, segundo o ministro da Indústria e Comércio do governo Castelo Branco, Paulo Egydio Martins, que foi governador de São Paulo entre 1975 e 1979. “Havia o pavor de repetir no açúcar os altíssimos estoques que o governo tinha feito de café, para salvar a cafeicultura, porque o Brasil não suportaria mais esses grandes débitos para as contas públicas”, explica ele.

Os estoques de café chegaram a incríveis 60 milhões de sacas – ou uma vez e meia as safras atuais. O cenário recessivo havia afetado os preços do café, outro produto com comércio controlado, o que obrigou o governo a comprar grãos para preservar o setor.

Mas Junqueira Franco recorda que, apesar de sua motivação maior ser econômica, o Proálcool já nasceu com um forte componente ambiental. O etanol servia como substituto do chumbo tetraetila, um aditivo tóxico até então misturado à gasolina para aumentar a octanagem do combustível. Se a nova preocupação ambiental é a emissão de gases do efeito estufa, o etanol de cana emite até 80% menos que a gasolina.

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