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Projetos divergentes geram confronto na Rio+20

Embaixador Corrêa do Lago diz que há conflito de ricos e pobres contra emergentes

Luiz Silveira

O embaixador André Corrêa do Lago, diretor de meio ambiente do Ministério das Relações Exteriores, disparou abertamente contra as posições europeias sobre a Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável que ocorre em junho no Rio de Janeiro.

Em um fórum da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag), realizado nesta quinta-feira (09), em São Paulo (SP), Lago afirmou que a posição europeia é um retrocesso de 40 anos e que há um confronto dos países ricos, aliciando os países mais pobres, contra Brasil, China e Índia.

A União Europeia defende que a conferência fique concentrada em temas de meio ambiente, para não perder o foco, mas o Brasil defende um debate sobre o desenvolvimento sustentável, incluindo aí os aspectos sociais e econômicos.

Renato Araújo/ABr

Para diretor de meio ambiente do Itamaraty, países emergentes não devem dividir a conta das mudanças climáticas

O diplomata explicou que é por isso que o Brasil se opõe à proposta da União Europeia, de concentrar a Rio+20 no tema ambiental para lançar as bases da Organização Mundial do Meio Ambiente. “Não concordamos para não isolar o meio ambiente [em uma organização à parte], que vem da ideia de preservar os recursos naturais e de que os países em desenvolvimento não sabem preservar esses recursos”, afirmou ele.

Essa preocupação dos países ricos com uma eventual escassez de recursos naturais, concentrados nos países em desenvolvimento, foi o que motivou os europeus a convocar a Estocolmo 72, primeira conferência da ONU ligada ao meio ambiente. “Esse espírito está voltando à tona de forma clara, infelizmente, depois de 40 anos de esforços diplomáticos para reverter isso.”

Por isso, o embaixador não se preocupa com as críticas de que a Rio+20 não produzirá nenhum compromisso vinculante com metas objetivas para os países cumprirem. ”A ONU é como a diplomacia, já há um grande esforço para que as coisas não aconteçam”, disse Lago, comparando indiretamente a Organização Mundial de Meio Ambiente com uma guerra: os esforços diplomáticos para evitá-las são grandes, mas não geram notícia.

Confronto
Além dos interesses econômicos diretos relacionados aos recursos naturais, a posição dos países desenvolvidos também estaria relacionada a um novo cenário geopolítico, na visão de Corrêa do Lago. ”Antes havia um grande confronto Norte-Sul, mas hoje o confronto é de todos contra Brasil, China e Índia, países que trazem crescimento econômico mundial, mas que ganham uma autonomia impressionante”, disse.

O embaixador afirmou que esse novo confronto também é sentido em relação à Rio+20, e que os países mais pobres também foram “aliciados” pelos países desenvolvidos. Um exemplo seria a própria discussão sobre mudanças climáticas na ONU, nas quais os países desenvolvidos querem “dividir a conta” da mitigação e adaptação com os países do BRIC.

Para Corrêa do Lago, essa divisão não faria sentido, porque o tipo de desenvolvimento do Brasil e dos outros grandes emergentes é diferente daquele que elevou os países ricos a esse patamar.

A visão do governo brasileiro nesse caso é que os países ricos começaram desenvolvendo o lado econômico, depois tiveram problemas sociais que precisaram ser respondidos e só depois de 200 anos entraram na parte ambiental. “Já nós, temos as três agendas ao mesmo tempo, então não podemos ser igualados”, explicou ele.

“Desde a Rio 92, quase não houve avanço nos Estados Unidos, a Europa fez menos do que se comprometeu e os países emergentes, surpreendentemente, fizeram mais do que se esperava”, disse o professor da Universidade de São Paulo e ex-ministro do Meio Ambiente José Goldemberg, em um vídeo gravado para o fórum da Abag.

A posição do Itamaraty parece ser consensual dentro do governo. Participando do mesmo fórum, o assessor extraordinário do Ministério do Meio Ambiente para a Rio+20, Fernando Lyrio, afirmou que “o Brasil pode estar na liderança na integração das três dimensões da sustentabilidade”. E citou como exemplo o desenvolvimento sustentável do agro brasileiro. “O agronegócio tem percebido que o desenvolvimento não precisa prejudicar o meio ambiente; maniqueísmo não é compatível com discussão sobre desenvolvimento sustentável.”

Segundo o secretário de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Erikson Chandoha, o programa Agricultura de Baixo Carbono e o cooperativismo devem ser exemplos brasileiros de desenvolvimento sustentável exibidos na Rio+20. Afinal, se a posição brasileira prevalecer na temática da conferência, será preciso embasar a argumentação de que o desenvolvimento do Brasil – e de outros emergentes – respeita mesmo o tripé da sustentabilidade.

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