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Você tem fome de quê?

Iniciativa de agricultura urbana gera renda em regiões carentes da Grande São Paulo

Júnior Milério

Na placa da Transpetro está escrito “Atenção! Dutos enterrados, não jogar lixo ou entulhos, não escavar”.  Mas plantar pode, e Hans Dieter Temp, da Ong “Cidades Sem Fome”, sabe disto e afirma, “o que fazemos pode ser expandido para todo o Brasil”. Horta comunitária, familiar, agricultura urbana. Independente do nome, o intuito é aproximar as pessoas da atividade agrícola, “cultivar produtos para comer e vender”, define Temp.

As áreas de plantio, normalmente, são espaços ociosos, subutilizados. Como no caso de dutos por debaixo da terra, ou terrenos com torres de transmissão de energia. E estes são apenas dois exemplos. “É cultural o hábito de apenas extrair da natureza o que ela tem, mas podemos e devemos cultivar também. E há espaço para isso”, afirma Temp, que completa, “pensamos em soluções que podem ser aderidas pelas políticas públicas”.

Com oito anos de existência, o projeto já beneficia mais de três mil pessoas em 21 hortas urbanas localizadas em regiões de vulnerabilidade social da Grande São Paulo. “Seu Zé” é um deles. Ele planta, consome e também vende. Mas a maioria é mulher. “Elas têm entre 40 e 50 anos e já não conseguem mais emprego com facilidade”, alerta Temp.

São mulheres como Ivone Maria de Oliveira Getúlio de 49 anos, que trabalha em uma área com cerca de três mil metros quadrados, na zona leste da capital paulista. O resultado é de encher os olhos. “Olha o tamanho desta abóbora!”, diz Ivone, encantada. “Fui eu que plantei, estou admirada.”

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Na horta localizada na zona leste de São Paulo, "Seu Zé" planta, colhe, vende e consome

E a diversidade de produtos depende da demanda de cada comunidade. “Eles pedem, a gente planta”, conta “Seu Zé”, agricultor, vendedor e morador da região. Durante a entrevista, um cliente chega, pede alface, e “Seu Zé” responde sorridente “esse tá pequeno ainda, mas tem escarola, quer?”.

Boas práticas e agricultura urbana

“Desenvolvemos estruturas de barateamento, que outras regiões, do Brasil e do mundo, também podem utilizar”, diz Temp. Para uma horta funcionar, ele identifica áreas onde tenha “água natural, que possa ser utilizada por meio de poços” e, valorizando a biodiversidade, “usamos flores ao redor das hortas e esterco de galinha para adubar”, afirma o especialista.

As mudas vêm de um viveiro fixado em uma das hortas coordenadas pela Ong. “Para facilitar o plantio, concentramos a parte mais delicada em uma das áreas”, explica o presidente. Capacitação também é uma preocupação de Temp, e para isto são oferecidos 48 cursos, que vão de técnicas de plantio a empreendedorismo. “Existem hortas que se produzissem três vezes mais, venderiam. Isto só para a demanda da própria comunidade”, conta ele.

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De um viveiro saem as mudas que serão cultivadas nas 21 hortas da Ong Cidades sem Fome

Exemplo premiado e requisitado

Com a colaboração das iniciativas privada e pública, o esforço de Temp sobrevive e, neste ano, foi premiado internacionalmente. O Dubai International Award for Best Practices, existe desde 1995 e premia organizações que priorizam sustentabilidade, qualidade de vida, inclusão social, entre outras demandas.

O projeto tem gerado necessidades impossíveis de serem atendidas em curto ou médio prazo. Segundo Temp, “há uma lista com centenas de pedidos de hortas para serem começadas em regiões de todo o Brasil”. Mas apesar de grandes parceiros, alguns recursos são aleatórios, ressalta o presidente.

Uma possibilidade de expandir as ideias de Temp, formado no Brasil em administração e na Alemanha nas áreas de agropecuária e políticas ambientais, está em um projeto desenvolvido para a comunidade Paraisópolis, em São Paulo.

Maria Augusta Bueno, representante no Brasil do escritório de arquitetura Urban Thin Tank, diz que há uma área destinada à agricultura urbana, e que o conhecimento de Temp é fundamental para um “desafio, por se tratar de uma tentativa de inovação. Ou seja, horta urbana em uma área degradada, com histórico de deslizamentos”.

Para Gilson Rodrigues, presidente da União dos Moradores de Paraisópolis, a horta urbana será “um resgate cultural, já que 85% dos moradores, que também sugeriram isto para o projeto, têm origem nordestina e familiaridade com esta atividade”. E completa acreditando que “tocar na terra de novo, com certeza será uma experiência válida”.

O trabalho de Temp se assemelha ao de Policarpo Quaresma, personagem do escritor Lima Barreto, que sonhava em criar condições plenas de alimentação para o povo brasileiro. Mas no que depender de sua disposição, esta história não terá o mesmo desfecho que o livro “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. Pois a Ong “Cidades sem Fome” pretende mais que distribuir alimentos, o objetivo é estimular o cultivo.

Um comentário para Você tem fome de quê?

  1. marli coimbra disse:

    Parabéns pela reportagem. Bem feliz esta foto do “seu Zé” com a produção de repolhos,lindos. Bela produção desta horta, exemplo a ser seguido.Grande abraço e sucesso sempre.

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